domingo, 10 de maio de 2009

os primeiros passos


e o verbo se fez carne...

os primeiros passos antes de trincar o fruto proibido.

(foto de zetavares)

cada cabeça sua sentença


Ainda é só uma ideia mas toma rapidamente forma. Já tem cabeça. Já tem sentença.

sábado, 18 de abril de 2009

A extraordinária aventura de uma criança chamada Pinóquio


Em pedaços desordenados, o nosso Pinóquio, aguarda o momento mágico da criação.

a viagem do elefante


Que história é essa, perguntou o comandante, A história de uma vaca. As vacas têm história, tornou o comandante a perguntar sorrindo, Esta, sim, foram doze dias e doze noites nuns montes da galiza, com freio, e chuva, e gelo, e lama, e pedras como navalhas, e mato como unhas, e breves intervalos de descanso, e mais combates e investidas, e uivos, e mugidos, a história de uma vaca que se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada e lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o seu filho uma longuíssima batalha, a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, Ao fim de doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais.


José Saramago

quinta-feira, 26 de março de 2009

foto de rui pires




Há um mapa de carne e pele, em relevo, sobre os ossos.
Um estar ali, queda e muda, com o mundo todo no olhar.
Há palavras neste olhar.
Afiadas como facas.
Brancas e limpas como lençóis.
Espanta-me a serenidade. Assusta-me tanta calma.
Adivinho um sorriso nos lábios cerrados.
Nas mãos um lume por acender.
É muito antiga, hoje.
Custa a acreditar.
Como num espelho devolve-me o tempo.
Um tempo que teima em passar.
Que não pára e apaga.
Que pega e parte e cadenciadamente esmaga.
Tudo e todos.
Menos esta mulher de olhos claros.
...
Há uma esperança.
Uma alegria.
Um bem-estar que me consola.
E bem fundo, em mim, a mulher nesta fotografia, fala.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Somos todos actores


Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.
Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de idéias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!
Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática - tudo é teatro. Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.
Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.
Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - "Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida".
Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!
Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!
Augusto Boal
mensagem do dia mundial do teatro 2009

terça-feira, 24 de março de 2009

chover no molhado


Mesmo sabendo que pouco há a acrescentar ao que já existe

proponho-me engrossar este mundo de ideias

onde nos movemos.

Com a desculpa da pobreza de espírito.